Sobre Linux E Trolls

O dia começou estranho hoje[*].

Estava eu tranquilamente olhando meu facebook para ver se alguma notícia nova dos possíveis novos jogos do Pokémon, quando uma postagem em um dos grupos de Linux que participo toma minha atenção. Primeiro porque eu não vejo muitas dos grupos de Arch/Manjaro (embora tenha mudado meu sistema principal para o Manjaro bem recentemente), e segundo porque era algo bem… diferente do que costumo ver.

Pra resumir a história, é uma treta onde alguém resolveru criticar o Linux e toda a comunidade Open-source e declamar seu amor pelo Windows:

Ok, kubuntu é um péssimo nome mesmo

Como não é a primeira vez que vejo isso, acho que devo fazer algo mais do que rir, fechar a aba e voltar pro Pokémon.

Mas vamos lentamente, um ponto por vez. (E quotando exatamente como ele disse, só para evitar futuros argumentos, embora escrever esse português me faz querer bater com a cabeça algumas vezes na parede.) Ah, e daqui pra frente sem zoeira, ok? Vamos conversar seriamente por um momento aqui para matar alguns mitos. E eu sei que esse post veio de um troll, mas achei que a oportunidade seria boa para falar um pouco sobre o assunto — e talvez aprender uma coisa ou outra.

Here we go:

  • “eles ensinam a hackear pcs usando linux”

    Primeiramente, quem são “eles”? Pessoas que escrevem tutoriais e guias de iniciantes para Linux? Se for isso, você já leu algum? Porque nenhum — e eu repito: nenhum — tutorial para iniciantes que eu li até hoje (e, acredite, eu andei lendo vários nas últimas semanas) nem ao menos chega perto de citar invasão de sistemas, a não ser para dizer o quão seguro é o Linux em comparação ao Windows.

    Se não foi esse o caso, então foi algum canal do Youtube que mencionava Linux e falava sobre invasão de sistemas? Se sim, e voltarei a repetir isso adiante, a informação está aí, e vem do caráter da pessoa usar os conhecimentos a favor de uma empresa ou contra ela. Existem pessoas contratadas por empresas com o propósito de invadir seus sistemas e gerar relatórios de segurança para que os erros sejam corrigidos (isso chama-se pentest, e é o que garante que a sua conta do Facebook não seja invadida semanalmente), mas também existem os criminosos que tentam roubar informações sigilosas por vários motivos (que vão de extorção de dinheiro para não liberar os dados roubados, à espionagem industrial, passando por muita coisa complicada no meio).

  • “o linux contem programas para criaçao de virus pois ele naum paga direitos autorais as empresas”

    Primeiramente, o que pagar direitos autorais tem a ver com criar vírus? Explique-me para que eu possa combater esse argumento.

    Segundo, sim, o Linux contém programas para criar vírus, e eles se chamam compiladores ou interpretadores. Para resumir muita coisa, a função deles é pegar um arquivo de texto (pense em um .txt) contendo, digamos:

    fn main() {
        println!("Hello, world!");
    }
    

    e converter essa coisa esquisita para algo que seu computador consiga compreender e executar.

    O único porém é que isso não é apenas um “programa para criar vírus”. São esses programas que tornam possível a existência de coisas como o Microsoft Office ou próprio Windows: eles são programas para criar programas (ou sistemas operacionais). Sem essas ferramentas, você teria que escrever listas enormes de zeros e uns para que qualquer coisa mínima acontecesse, porque é basicamente isso que o seu computador é capaz de entender. Essas ferramentas permitem a utilização de uma linguagem mais próxima do inglês, o que torna os programadores da Microsoft, da Apple, da comunidade open source, e de muitos outros lugares (incluindo hobbystas, como eu) mais produtivos e capazes de criar programas mais complexos com janelas e botões para você clicar, manupulando imagens para editar suas fotos, criando imagens em “três dimensões” para modelar objetos, etc.

    Claro que, como qualquer coisa, existem pessoas que usam esse tipo de conhecimento para criar jogos, sistemas operacionais ou vírus de computador. Lembre-se que a mesma energia nuclear que cria as usinas também cria as bombas atômicas. O princípio é o mesmo, mas o caráter não. (E só o princípio também, porque existe um abismo enorme entre a criação de um vírus e a do Blender, por exemplo.)

    Se você está curioso, esse exemplo que coloquei é da linguagem Rust. Não recomendo que seja sua primeira linguagem de programação, mas recomendo que dê uma olhada se, futuramente, continuar interessado; mas estude, pelo menos, um pouco de Python para entender melhor o que estou falando.

  • “vc naum compra o linux ele eh gratis”

    As coisas não são exatamente assim, se estivermos levando isso tão ao pé da letra quanto possível. Tecnicamente, dependendo da distribuição, você pode ter de pagar pra usar um sistema Linux em um servidor, por exemplo. No geral, para uso pessoal, sim, é isso mesmo.

    Só não entendo o que tem de errado em não ter de pagar pelo sistema operacional. Explique-me esse argumento.

  • “o linux eh usado desde quando surgiu o windows e machintosh ou apple”

    Rapaz, você poderia pesquisar um pouco mais antes de começar a cuspir argumentos. Mas ok, cada um tem o tempo que tem, e nem todo mundo está disposto a ler artigos históricos, mesmo que diga amar o sistema operacional que usa.

    Segundo a página oficial da Microsoft, o Windows começou a ser criado e usado em 1980. Uma pesquisa rápida no Google me diz que a Apple foi criada em 1976, então imagino que os Macs estejam no mercado desde então. A história do Linux começa em 1991, ou seja, muito depois da Microsoft e da Apple.

    Não bastasse isso, sua história tem mais relação com os sistemas Unix do que com a Microsoft ou a Apple. Leia a página linkada no parágrafo anterior.

  • “eles tem inveja de quem usa windows”

    Quem são “eles”?

    Não sei que vizinhança você anda frequentando, mas certamente deveria sair daí o mais rápido possível.

    Se tem alguém que inveje uma pessoa por usar um sistema operacional, esse alguém usa Windows ou Mac. Participo (mais como ouvinte, mas ainda participo) há anos de várias comunidades sobre Linux, e posso orgulhosamente dizer que nunca vi alguém sofrer preconceito por usar outro sistema operacional. Muito pelo contrário, vejo pessoas acolhendo esses novos usuários, ou ajudando-os no que precisam.

    Sim, tiramos sarro de quem usa outros sistemas. Mas, acredito, a maioria de nós sabe que o Linux não o melhor sistema para todos. Que existem pessoas que, mesmo não querendo, precisam trabalhar em um Windows ou em um Mac — e, não raramente, pessoas que odeiam esses sistemas. Na medida do possível, tentamos converter as pessoas para o mundo do Linux porque entendemos que isso ou aquilo que a Microsift ou a Apple fazem não é tão legal com seus usuários, ou porque queremos que essas pessoas parem de usar softwares piratas sem necessidade.

    Sei disso porque fui uma dessas pessoas. Mais disso adiante, continue lendo.

  • “usam linux porque ele naum pode ser encontrado se rastreado na net”

    Rapaz, você não tem a mínima ideia de como a Internet funciona, não é mesmo? Esse post já está ficando longo demais pra uma resposta a um troll, e redes é a área que menos gosto da informática, então procure um pouco por conta própria.

    Agora, se você tiver ido longe o bastante pra saber o que é a rede Tor, apenas deixo-lhe esse vídeo:

    Resumo da história: não existe isso de “naum pode ser encontrado”. Sim, você pode dificultar um pouco, mas, por causa da forma como a Internet é construída, é impossível ser irrastreável.

  • “se naum fosse o linux… n existiria virus”

    Estava considerando seriamente ignorar esse, mas, de tão ridículo que é, capaz de ter gente por aí que realmente acredita nisso.

    Um simples argumento basta: por que aprender a usar um sistema operacional só para criar um vírus para outros sistemas? Para criar um vírus para um sistema operacional, você tem que saber como ele funciona a níveis muito mais aprofundados do que um usuário comum. Sim, é fácil criar um script que copie a si mesmo milhares de vezes, mas onde você o esconderia no sistema? Como o faria rodar sem o conhecimento do usuário? Como burlaria algum firewall ou antivírus?

    Novamente, por que você se daria ao trabalho de aprender outro sistema operacional só para criar o vírus, sendo que você já tem muito o que estudar no seu sistema? Talvez eu esteja errado, nunca estudei nada disso a fundo, mas, do meu ponto de vista, não faz sentido usar Linux apenas para criar vírus para Windows.

  • “como eu disse”

    Disse? Onde?

  • “como eu disse… ele protege bandido e pedofilos”

    Como diabos você consegui chegar nesse argumento? Meus parabéns, você é o pior troll que eu já vi.

    Linux não protege ou condena ninguém. Ele garante que seus dados não serão compartilhados com empresas (sendo que você não tem nem ideia do porquê eles coletam esses dados para início de conversa), que seu computador estará livre dos vírus (não só porque a maior parte dos hackers focam em criá-los para Windows, mas pela própria arquitetura do sistema), e que você terá uma poderosa plataforma de trabalho, especialmente se você for programador.

Ufa, isso foi um ótimo exercício de paciência, e até aprendi uma coisinha ou outra de história.

Ah, você achou que acabou? Eu também tinha achado, mas tem muito mais. Muito mais.

Foo

Ele resolveu que seria interessante postar uma foto da Selena Gomez em um grupo sério de Linux, e ainda reclamou por ter recebido uma denúncia.

Deixa eu falar rapidinho aqui com ele, ok?

Rapaz, se você vai na sua escola e, no meio da aula, puxa um cartaz com uma mulher pelada, o que seu professor vai fazer? Provavelmente, se ele tiver um miínimo de caráter, irá reprimí-lo pela atitude. Por que ele é viado? Se ele for, o que isso tem a ver contigo? Só porque ele gosta, não significa que você é obrigado a sair dando em cima de homens. Ele vai te reprimir porque você tomou uma atitude inadequada ao ambiente. Escola é um lugar de aprender, não de ver putaria. Regras de etiqueta existem e são socialmente aceitas pois demonstram o comprometimento e a seriedade dos indivíduos que trabalham ou visitam um local, e o mesmo vale para a Internet.

Foo

Foo

Conforme mencionei anteriormente, segurança da informação é uma das grandes áreas dentro da informática. Tive interesse por ela anos atrás, até descobrir que era difícil e desinteressante demais para mim, o que não significa que não seja importante. Mas, se tem algo que aprendi nos poucos meses de interesse na área, é que você não consegue defender nenhum sistema sem saber como atacá-lo. Pensar como um hacker é a melhor forma de descobrir buracos na parede ou falhas na cerca elétrica para poder corrigi-las.

E, novamente, tudo depende do caráter da pessoa. Você pode dar o seu CPF no caixa do supermercado para participar do programa de pontos, mas nada a não ser a confiança na empresa te garante que esses dados não serão usados de forma errada.

Além disso, onde está a relação do livro com o Linux? Python é uma linguagem de programação multi-plataforma, e uma das mais populares atualmente.

Para finalizar, se alguém ainda tem dúvidas de que é um troll:

Foo

Só me respondam uma coisa: o que diabos é “windows bt”?


Se ainda não está satisfeito com tudo isso, aqui tem uma carta aberta sobre um post do reddit que ficou famoso na comunidade Linux, pra você se divertir ainda mais.

Para terminar, digo, orgulhosamente, que escrevi esse artigo em Markdown, usando o editor de texto Vim, numa sessão do Tmux no sistema Manjaro. Usei Ubuntu por um bom tempo em dual-boot com Windows por causa de algumas coisas da faculdade que eu não conseguia fazer no Linux (SolidWorks e AutoCAD, basicamente). Atualmente, rodo feliz Manjaro KDE (embora a maior parte do tempo eu passe no tmux, o que torna o KDE meio inútil… bem, tirando o picmi que estou sempre jogando) e me orgulho em dizer que me livrei de todo software pirata que já usei. Se duvida, aí está a lista das trocas que fiz:

  • Microsoft Office: LaTeX ou Markdown + Emacs/Vim

    Nunca usei nada além do Microsoft Word, então foi “fácil” substituir. Claro que LaTeX dá trabalho, mas também me deu muitos conhecimentos de formatação de livros que pretendo usar quando quiser imprimir o meu. (Markdown, ao contrário, foi muito tranquilo de aprender, e estou usando cada vez mais para qualquer coisa.)

  • Autodesk Maya: Blender

    Até hoje não sei porque me dei ao trabalho de baixar e instalar esse programa. Nunca usei, nem sequer vi qualquer tutorial dele. Recentemente, depois de algumas aulas de CAD na faculdade, resolvi experimentar o Blender só por curiosidade de ver como ferramentas de modelagem 3D artísticas funcionavam, então acho que conta como uma troca?

  • Adobe Premiere: Blender e Pitivi

    Sim, era basicamente a mania de baixar coisas piratas por baixar coisas piratas. Mas, recentemente, tive de gerar alguns gifs, e ter aprendido a editar vídeos no Blender ajudou.

  • Adobe Audition: Audacity

    Cheguei a aprender bastante coisa do Audition, até resolver formar um podcast. Por puro medo de copyright mudei para o Audacity e foi aí que comecei a ver que eu não precisava dessas ferramentas todas — e que existiam alternativas gratuitas a elas.

  • MATLAB: Octave/Python+Jupyter/Racket/…

    Finalmente algo que eu realmente precisava usar, especialmente porque prefiro simulações numéricas a experimentos de laboratório (e, ao contrário da medicina, isso é viável de ser feito na engenharia). Até o meio do ano passado eu acreditava que o Octave não me atenderia, mas fico feliz em dizer que estava errado. Ainda prefiro usar uma linguagem de programação (especialmente Python ou Racket) se for possível, mas não precisar reescrever o ode45 é uma ótima desculpa para usar o Octave.

  • um monte de jogos: Steam + consoles

    Não é surpreendente isso, de verdade. Quem pirateia editores de vídeo (mesmo que nunca tenha usado), claro que vai piratear jogos. Na verdade, como meu computador nunca foi lá essas coisas, os jogos foram os primeiros que eu parei de piratear.

[*] Refiro-me ao dia em que comecei a escrever esse post, pois já se passaram algumas semanas desde então. Faculdade ainda continua comendo meu tempo.

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