O Sistema Educacional

Antes de ler esse texto, por favor assista ao vídeo abaixo. Afinal, esse post é, ao mesmo tempo uma resposta a esse vídeo e às pessoas que pedi que o assistissem e me dessem suas sinceras opiniões, e usa o mesmo vídeo como desculpa para falar sobre o mesmo assunto.

Pois bem, agora que já assistiu, vamos ao que interessa.

Antes de mais nada, reconheço que o ensino é falho – não somente no Brasil, mas no mundo inteiro – e tenham em mente isso. Não é porque vejo nos animes (especialmente nos slice of life) que creio ser o ensino japonês o melhor do mundo, nem porque, vez ou outra passa na Globo (minha mãe idolatra esse canal) como é o sistema de ensino de tal país, e como lá todo mundo vive feliz e no País das Maravilhas que eu vou acreditar tão facilmente assim.

Não existe ensino perfeito. E, de fato, ninguém sabe como educar as crianças – certas vezes você vê isso estampado na cara dos professores, sem querer desmerecer a profissão. A questão é que querem encaixar todos as diversas miniaturas de pessoas em um único sistema que seja bom para todos, ignorando as peculiaridades de cada um e, muitas vezes, desmotivando o aprendizado, a pesquisa, a curiosidade.

Pois, afinal, é a curiosidade que nos faz humanos.

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1 O ensino da matemática sem calculadora

Pra começo de conversa, se você acha que matemática é saber como somar 2 + 2, você esta muito enganado. Uma definição dada no livro Os Problemas Do Milênio foi bem convincente pra mim: “a matemática é a ciência dos padrões”. Ou, segundo a Wikipédia (ok, não é a melhor fonte de informação do mundo, mas a pagina em questão me parece coerente), “é a ciência do raciocínio lógico e abstrato”.

Acho que só por isso dá pra notar que não é tão simples quanto parece, não é? Se quiser saber o que é matemática mesmo, pesquise por cálculo diferencial, cálculo variacional, teoria dos grafos, ou as famosas álgebras linear e tensorial. E isso nem é a ponta do icebergue do que temos atualmente.

Mas, voltando à escola.

OK, concordo que computadores ajudam (e muito) engenheiros e afins a construir estádios, prédios ou pontes. Mas nenhum computador faz magicamente as contas para isso; e mais, existe toda uma lógica de programação em cima do modelo matemático do problema em questão. Se você acha inútil achar as raízes da equação de segundo grau x^2 – 4x + 3 = 0 sem o uso de uma calculadora, experimente com uma maquina dessas, ou mesmo um computador potente, modelar e calcular a deformação que uma ponte irá sofrer ao longo do tempo.

Sim, isso é engenharia, mas a engenharia é o Dark Side da matemática. (Ou, nas palavras de um professor meu, “engenheirar é transformar a ciência em tecnologia”.)

Grande parte do problema é descrito em equações. Equações absurdamente mais complexas do que um simples x^2 – 4x + 3 = 0. Aliás, nesses casos, somente um computador é capaz de resolver em tempo viável o problema, mas a modelagem matemática da coisa toda não é feita por ele.

OK, agora é a hora que você me diz que isso é um conhecimento especifico da área e que é inútil para 99.9% das pessoas. Vai, fala logo que eu espero você me xingar.

Pronto? Posso continuar agora?

Então, além do fato de você aprender matemática com o enfoque totalmente distorcido, a coisa toda não serve para, digamos, quem vai ser um historiador, ou um biólogo, certo?

Bem, não é assim que funciona. Mas, como esse trecho é meio parecido com o próximo, vamos jogar tudo nele.

2 A ginastica cerebral

A matemática não é só composta de números e equações. Existe, por exemplo, um ente muito usado na minha faculdade: vetor.

Bem, com certeza algum professor de física lhe definiu o que é um vetor. Aquelas setinhas, que você usava para indicar a velocidade de uma partícula, ou uma força sobre um bloquinho.

Pois bem, permita-me contradizê-lo: seja lá como ele lhe explicou, ele está errado. A definição formal de vetor é: “um ente matemático invariante a uma transformação do sistema de coordenadas, e que requer três componentes para ser completamente descrito no espaço euclidiano 3D”.

(Como o mesmo professor que definiu isso para mim disse: “Mas o que significa ele ser ‘invariante a uma transformação do sistema de coordenadas’? Por exemplo, eu te dou uma porrada. Muda a descrição; quem leva a porrada agora por acaso sou eu? Claro que não, você continua apanhando.” Eu ri muito disso.)

Mas por que estou falando de vetores? Pois é o exemplo mais simples que me vem à mente. O que importa não é isso, mas botar na sua cabeça que matemática não é só soma de números.

E que a matemática é total e completamente lógica.

Seja somando números, calculando raízes de equações, ou derivando uma função qualquer, há uma lógica por trás de tudo isso, e é essa a lógica que você deveria, no mínimo absoluto global, sair do ensino fundamental sabendo. Caro, no papel é bonito, forma um ótimo discurso e deixa os pais livres dos filhos por mais tempo, mas não é assim na pratica. Mas deixemos isso de lado por hora pois estou contradizendo o vídeo primeiramente.

Não apenas a lógica matemática, mas o ensino de disciplinas variadas estimula o cérebro de formas diferentes e, em teoria, torna as pessoas mais inteligentes, simplesmente por estarem ali, ouvindo algo sobre outra área que não a sua específica. Nós podemos não aprender tudo por osmose, mas sempre absorvemos alguma coisa como, digamos, o que foram as Grandes Navegações.

Ah, sim, a história. Por que aprender sobre gente que morreu, não é mesmo? Pois é, tanta coisa mais útil para se fazer e vai querer perder tempo descobrindo o que os egípcios pensavam dos gatos.

Acontece que é bom saber de onde viemos. Imagine alguém que não sabe o que foi a Segunda ou mesmo a Primeira Guerra Mundial? Acha isso um absurdo? Mas quem não viveu na época ou não estudou história mundial poderia não saber de sua existência. Alias, também não saberia que existe um arsenal enorme de bombas atômicas espalhado pelo mundo por conta duma tal de Guerra Fria.

Geografia, então. Pra que serve essa porcaria? Acho que você não sabe que o Brasil é o MAIOR PRODUTOR DE NIÓBIO DO MUNDO. Mas nióbio, pra que serve essa porcaria? Um elemento desconhecido, que diferença faz, né? Acontece que ele é caro e o país vende a preços ridículos, sem contar que circuitos eletrônicos o usam com freqüência.

Computador, conhece? Essa coisa que você está usando pra ler esse texto de um desconhecido na internet.

(Com fins didáticos não vou dar uma aula sobre nióbio aqui. A própria Wikipédia tem um artigo bom sobre ele, e devem haver uns dez ou vinte livros disso.)

Química então. Alguma dessas matérias tem que servir apenas pro vestibular, né? Mas, espera, o tal nióbio ali é um elemento químico.

Filosofia? Sociologia? Biologia? Ah, pense por si mesmo um pouco, vai. Tenho mais coisas pra falar ainda.

Existem estudos por aí que comprovam que ler sobre diversos assuntos exercita sim o cérebro. Pesquise um pouco aí e seja feliz lendo sobre alienígenas estupradores/conspiradores ou sobre campos quânticos.

Agora vamos supor que o tal ensino focado ao mercado de trabalho existisse. E olha só, o próximo tópico é ele mesmo.

3 O sistema de matérias eletivas / O ensino para o mercado de trabalho

Estamos falando, afinal, de mais de dez anos de educação jogados fora, pois, como foi argumentado no vídeo, passamos esse tempo todo estudando pra passar em uma mísera prova.

Imagine desperdiçar mais de dez anos da sua vida. É muito tempo. Poderia ser mais útil, não acha?

Pois bem, com quantos anos você começa a ser alfabetizado? Cinco? Quatro? Eu sei que existe um projeto do governo para alfabetizar todas as crianças até oito anos. Enfim, digamos que todo mundo com oito anos saiba ler, escrever, fazer as operações básicas matemáticas e ainda tenha umas noções pingadas de história, geografia, biologia e uns outros assuntos quaisquer.

E agora você tem que decidir o que vai fazer pelo resto da vida. OK, você ainda tem de cursar algumas coisas básicas, como português, matemática e algumas outras, mas agora você pode escolher o que fazer dentre umas opções e ignorar todo o resto.

Aliás, vamos simplificar a coisa toda: não o que fazer pelo resto da vida, mas escolher algumas matérias para estudar, como culinária, teatro, fotografia, programação ou coisas afins.

Lembre agora que a maioria das pessoas não recebe informação o suficiente (oh, a ironia) para saber o que quer fazer da vida lá com seus dezesseis anos. Agora me diga: a mesma pessoa saberia quais matérias escolher com tão pouca idade?

Para a industria, de fato é melhor criar gerações de zumbis para abastecer suas necessidades. Se esse tipo de educação fosse uma realidade universal, porque elas não iriam na fonte para se abastecer de funcionários relativamente competentes? Estamos falando de colocar uma pressão enorme em crianças de oito ou nove anos, forçando-as a decidir suas vidas sem nem tê-las vivenciado direito.

Além disso, estamos falando em ignorar conhecimentos fundamentais em prol de uma educação mais técnica, de modo que a formação semi-completa de uma pessoa ocorreria no ensino fundamental ou, no máximo, após o ensino médio. Seria vantajoso? Talvez para a industria, que preencheria mais facilmente as tantas vagas de que precisam, ou para as pessoas que não querem ter de estudar.

Mas e a formação cidadã? Muito conhecimento se perderia no processo, e seria ainda mais fácil para o governo manipular o que as pessoas deveriam ou não aprender, ignorando, digamos, história, ciência ou filosofia, que nos tornam críticos. Ceticismo é algo que um governo como o brasileiro não quer que seu povo possua, e não por acaso é uma das bases fundamentais da metodologia cientifica.

Aliás, para não ser tão específico, digamos que o governo não quer que sejamos curiosos.

Que façamos perguntas incômodas.

Que investiguemos suas ações.

O que nos leva ao próximo tópico e a uma discussão a parte sobre o (nulo) incentivo à leitura nesse país. Mas como é uma discussão à parte, não vamos levar isso adiante agora, e sim nos concentremos no próximo tópico.

4 Ensinar a passar no vestibular

Se o sistema anterior estava longe do ideal, esse está mais ainda.

E, infelizmente, é o praticado aqui, inclusive com cursinhos pra deixar o aborrescente longe dos pais por mais tempo, com alguma “ocupação para garantir seu futuro”.

Pra começo de conversa, faculdade não deveria ter o status que tem hoje. Ninguém deveria ser socialmente obrigado a estudar ainda mais para poder trabalhar e ter um salário decente para sobreviver. Aliás, só faculdade não significa muito atualmente; pra ser reconhecido, você tem que ter graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, e um pós-doutorado, senão não é ninguém nesse mundo.

(Não desmerecendo quem tem tudo isso, muito pelo contrário, admiro muito quem tem tanta vontade de estudar um único assunto assim.)

De qualquer forma, o pior de tudo é ser socialmente obrigado a ter um canudo de faculdade. Chegamos ao vestibular sem idéias do que os profissionais fazem diariamente, ou do que é preciso para chegar até lá, e ainda assim somos forçados a decidir o que fazer.

De fato, não há justificativa alguma para esse tipo de ensino.

E, enfim, chegamos ao último tópico mencionado no vídeo que quero discutir.

5 Todo conhecimento é bom

Só esqueceram de completar a frase: “mas nem todo mundo irá usá-lo”. Se essa frase não fosse verdadeira, você estaria me dizendo que existem informações inúteis sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Claro, você que faz filosofia não precisa saber o que são as equações de Navier-Stokes, nem você que é economista precisa saber o que é um tensor de tensões. Isso, porém, não implica que essas informações sejam inúteis. Apenas não agregam valor às áreas citadas.

Se você parar pra pensar, até a mais insignificante informação pode ser útil para alguém, é só usar um pouco de imaginação.

A questão é que não há como uma única pessoa, nos tempos atuais, conhecer tudo. Simplesmente não há como, ou é tão improvável que não faz diferença. Existe informação demais circulando todos os dias, e simplesmente quem não é da área tem de ignorá-la. Simplesmente não dá pra concentrar tudo num cérebro só.

E aqui entra aquele clássico argumento: “se nenhum professor consegue ensinar todas as matérias, como eles esperam que um único aluno aprenda tudo?”

Pois deixe-me colocar isso assim: você não vê nem o básico de todas as matérias. E, além disso, acha mesmo que biologia é tão inútil quanto culinária para seu dia-a-dia? Acontece que ela te ensina sobre as coisas que podem (ou irão) te matar, e como se prevenir.

OK, novamente tudo fica bonito sendo falado, gera votos e deixa as crianças longe dos pais por mais tempo, enjaulados num mundinho que os deixam em paz durante o dia. Acontece que conhecer o básico do básico sobre tudo é importante.

O que está errado é a forma como isso foi aplicado; o sistema de ensino atual, e como era quando me formei no ensino médio, está eras atrasado. É primitivo e determinístico demais para funcionar bem.

[—]

Eu não sou psicólogo, pedagogo nem nada do tipo, então não vou dizer que tenho uma solução pra isso – porque de fato não a tenho.

Aliás, nem sei se existe uma solução para isso.

E, agora que eu vejo, nem cheguei a falar o ensino de metodologia científica nas escolas, que acredito ser o que realmente falta.

Talvez seja esse sistema de provas, talvez os professores (tive e tenho muitos professores ruins, um inclusive que xingou uma sala inteira na aula anterior à prova), talvez tudo esteja errado e devêssemos começar do zero.

Mas e aí? O texto está grande demais pro meu gosto, e estou soando mais chato e velho do que deveria, então comenta aí. Diz se concorda comigo, se discorda, se eu deveria tomar um chá de cogumelo…

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